Maço de cigarro ganha foto e aviso maior para assustar fumante

Por Maria Pia Palermo

Sexta-Feira, 25 de Janeiro.

SÃO PAULO (Reuters) - Cada vez que um fumante pegar o maço para tirar um cigarro, a partir de fevereiro, dará de cara com cenas dos males que o consumo pode causar. O Brasil, que tem 30 milhões de fumantes e consome 142 bilhões de cigarros por ano, é o segundo país do mundo a ter uma lei que obriga a indústria a estampar imagens e frases contra o fumo nas embalagens do produto.

Essa é a última cartada do governo para tentar reduzir o consumo de tabaco no país. Depois de proibir o consumo de cigarros em locais públicos, incentivar os "fumódromos" dentro de empresas privadas, restringir a publicidade, entre outras medidas, o país parte para um ataque aberto em território inimigo.

"Isso faz parte de um conjunto de medidas que estão sendo tomadas pelo governo para reduzir o número de fumantes no país. Sabemos que o tabagismo é uma doença, mas para combatê-lo também se exige uma mudança de comportamento", disse o pneumologista Ricardo Meirelles, chefe-substituto da Divisão de Tabagismo do Instituto de Câncer (Inca).

Frases lembrando que fumar causa mau hálito, perda dos dentes, impotência sexual e baixo peso de bebês, ilustradas por imagens de um casal na cama com ar de consternação ou por um recém-nascido prematuro todo entubado, por exemplo, vão concorrer com logomarcas consagradas. A velha advertência do Ministério da Saúde, perdida na lateral dos maços, será substituída em alto padrão. O alerta e a foto serão muito mais visíveis, ocupando todo o verso da embalagem, com fundo preto.

A indústria do tabaco movimenta cerca de 8,5 bilhões de reais por ano no Brasil, gerando uma arrecadação de impostos que chega a 70 por cento do mercado legal, ou 4,6 bilhões de reais, de acordo com a Abifumo (Associação Brasileira da Indústria do Fumo). O comércio clandestino responde por 1,9 bilhão de reais por ano.

MORTES E PREVENÇÃO

O tabagismo mata 80 mil pessoas por ano no país, segundo dados do Inca. Sabe-se que 90 por cento dos casos de câncer de pulmão estão associados ao fumo. Segundo Meirelles, o tabagismo pode causar 40 tipos de doenças e o grande problema é que são enfermidades tardias. O câncer de pulmão, por exemplo, pode levar de 20 a 30 anos para aparecer. Apesar disso é muito letal, e a sobrevida geralmente não passa de cinco anos.

O governo considera a prevenção ao tabagismo a forma mais barata de "tratar" as doenças. Apesar de recentes, as medidas já surtem alguns efeitos, como mostra uma avaliação feita no próprio Inca com seus funcionários fumantes. Segundo resultados preliminares de uma pesquisa, feita depois que foi vetado acender um cigarro dentro de repartições públicas, houve uma redução de 20 por cento no consumo de cigarros em um prazo de cerca de dois anos.

A Souza Cruz considera que a resolução "impõe mais uma restrição à comunicação" dos produtos, mas classifica a medida como inteligente. Isso porque "cria uma diferenciação para o produto legal frente ao crescimento ilegal de cigarros", que gera uma evasão fiscal de mais de 1,3 bilhão de reais por ano, segundo a empresa.

O mau hálito também é um dos temas da campanha do Ministério da Saúde, que vai ilustrar os maços de cigarro a partir de fevereiro.

A companhia, que detém 80 por cento do mercado brasileiro, arrecadou em 2001 cerca de 3 bilhões de reais.

SUTILEZA

O Brasil, que segue os passos do Canadá, optou por ilustrações mais utis nos maços de cigarro, sem chocar os fumantes com imagens fortes de órgãos afetados por doenças decorrentes do fumo. Segundo Meirelles, isso foi proposital. "A orientação era essa, de não ter imagens tão chocantes por enquanto", disse o especialista, acrescentando que também estará impresso na embalagem o número de um Disque Pare de Fumar, conforme determinado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Segundo ele, além da advertência, é vital um acompanhamento para a pessoa que quer largar o vício.

Para a coordenadora do Grupo de Apoio ao Tabagista, do Hospital do Câncer de São Paulo, Maria Tereza Cruz Lourenço, as imagens devem ter mais impacto que medidas anteriores, pois tira o "charme" da embalagem. Segundo ela, algo fundamental para incentivar o fim do tabagismo é uma mudança de hábitos e comportamento, por isso é fundamental acompanhar a pessoa que tenta largar o cigarro.

De acordo com dados do centro, das pessoas que tiveram acompanhamento durante o processo de abandonar o fumo, 60 por cento se mantiveram abstêmios após cinco semanas, 33 por cento depois de seis meses e 25 por cento após um ano.

Meirelles ressalta que nunca é tarde para largar o cigarro. Apenas um ano após abandonar o vício, o ex-fumante tem o risco de ter um enfarte reduzido à metade. Depois de 15 anos longe do cigarro, é como se ele nunca tivesse fumado, afirma uma pesquisa de Riad Younes, do Hospital do Câncer.

A medida que criou o novo layout dos maços de cigarro só pode enfrentar um problema, já sofrido pelo Canadá: a criação de "capinhas" para o maço, que escondam a visão desagradável dos males a que os fumantes estão sujeitos.

A estratégia não foi de todo eficiente: mesmo com as capinhas, um terço dos fumantes que tentaram largar o cigarro em 2001 no Canadá afirmou que as imagens de doenças influenciaram sua decisão, segundo estudo da Sociedade Canadense de Câncer.


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