
Bagdá, a cidade-cemitério, perdeu a conta de seus mortos

Bagdá é uma cidade sem os mais triviais serviços públicos. Nem os coveiros
aparecem para trabalhar. Apesar de a cidade estar coberta de corpos, não há
ninguém para enterrá-los. Os parentes dos mortos têm que usar as pás eles
mesmos.

BAGDÁ, Iraque - Havia um senhor em pé, dentro da cova. Moscas pretas rodeavam
seus tornozelos e espalhavam-se, cada vez que enfiava a pá na terra.
O corpo de seu irmão estava a seus pés -deformado, apodrecendo,
irreconhecível como humano. Em uma lápide próxima, estava uma sacola plástica.
Nela, havia o que restava de sua cunhada, seus dois sobrinhos e suas duas jovens
sobrinhas.

"Esta é a primeira vez que cavo uma cova eu mesmo", disse o senhor, Khali Abbas
Ali. Seus parentes morreram há cinco dias, quando um míssil americano atingiu
seu carro.
"Todo mundo que trabalhava no cemitério foi embora", continuou Ali, 65. "Não há
ninguém para ajudar, então temos que fazer tudo nós mesmos".

Bagdá é uma cidade sem os mais triviais serviços públicos. Nem os coveiros
aparecem para trabalhar. Apesar de a cidade estar coberta de corpos, não há
ninguém para enterrá-los. Os parentes dos mortos têm que usar as pás eles
mesmos.
Alguns enterraram seus amados nos hospitais onde morreram. Outros enterraram-nos
em casa. Aqui, no Cemitério Boratha, tantos corpos foram enterrados que os
túmulos estão amontoados uns nos outros. As lápides vão até os muros; não há
caminho entre elas. Quando se faz um enterro, muitas vezes, inadvertidamente,
encontra-se outro túmulo.

O único funcionário do cemitério que ainda está lá, aparentemente, é o que
coleta o pagamento. Nihad Salman, um dos sobrinhos de Ali, disse que sua família
pagou 200.000 dinares, ou aproximadamente R$ 230, por um espaço no cemitério,
que já está para lá de lotado.
"Foi difícil juntar esse dinheiro", disse Salman. "Mas fomos forçados. O homem
nos cobrou tudo isso e, depois, nos deixou sozinhos."

Passar uma ou duas horas em Boratha é ver onde o sofrimento encontra o trabalho.
Senhoras vestidas de preto gritavam diante de covas abertas. Depois,
rapidamente, ajudavam seus maridos com a terra. Um homem, com o rosto contorcido
de chorar, levava um bebê morto, coberto com um lençol, para uma cova. Seus
parentes tinham cavado o buraco meia hora antes.

Boratha é um banquete para as moscas. O cheiro alcança o nariz já fora do
portão. Em toda parte há o fedor da morte.
Alguns, como a família de Ali, tinham sido forçados a enterrar seis pessoas em
um único túmulo. Salman disse que, na própria manhã da segunda-feira (14/04),
vira o corpo de um menino, que tinha sido enterrado em uma cova rasa, sendo
comido por um cachorro.

Caminhando pacientemente pelo cemitério, estava Khodeir Ali, 54, que faz o
cântico de velório do Alcorão, por gorjetas que vão de R$ 0,50 a R$ 0,65.
Ali executa esse sacramento há 30 anos, mas nunca trabalhou tanto quanto nas
últimas três semanas. "Antes da guerra, havia três, quatro, sete enterros por
dia, de acordo com o desejo de Deus", disse ele. "Agora, os números aumentaram
para centenas. Nesta manhã, já enterramos 40 ou 50 pessoas".
Eram apenas 11 horas.
(Alan Feuer.
Tradução: Deborah Weinberg. Fonte: Time/Uol.) |