Pai encontra bebê no hospital. Morto.

Mohammed Suleiman foi visitar a filha de 7 meses num hospital de Bagdá. Encontrou-a morta em meio ao caos que se instalou na rede hospitalar da capital

Voluntários enterram 17 corpos em decomposição embebidos em sangue em uma vala comum, no quintal de um hospital abandonado de Bagdá. Do lado de fora, um homem foge de um tiroteio e é atropelado, morrendo a alguns metros da vala. Moscas ainda sobrevoam seu corpo ensangüentado quando, dentro do quase desértico hospital Al Yarmouk, o engenheiro Mohammed Suleiman não contém sua dor. Sua filha caçula, a pequena Rowand, de apenas sete meses, está morta.

A criança havia sido ferida horas antes na explosão de uma bomba, trazida da rua pelo irmão mais velho. "Por favor, olhe para o rosto dela e veja como ela é linda", suplica Suleiman ao médico de plantão que testemunha sua dor.

"Minha linda, minha linda", balbucia o engenheiro, de 47 anos, passando a mão sobre o rosto da filha, carinhosamente, enquanto o corpo era coberto e removido. Seus olhos estavam apenas abertos e seu nariz e boquinha, ensangüentados.

O rosto da pequena Rowand parecia quase tranqüilo. Suleiman está convencido de que o artefato era uma bomba americana. A explosão também feriu sua esposa e sobrinho. "Só gostaria de perguntar: por que? É nosso petróleo que está provocando todas essas mortes? Diga aos americanos que o levem todo, mas deixem nossas crianças viver."

Então, num momento de ira, Suleiman vira-se para os voluntários e declara:

"Vou matar algum americano um dia. Talvez não hoje, mas quiçá em 10 anos." O corpo da pequena Rowand é retirado da sala. Desmanchando-se em lágrimas e, num instante de desespero, seu pai bate a cabeça contra o chão. "Por quê? Por quê?"

Sem policiais nas ruas, a capital do Iraque, de cinco milhões de habitantes, continuava sendo alvo de saques sexta-feira. A falta de energia elétrica tornou o caos ainda maior e piorou a situação nos hospitais. Água potável só pode ser encontrada em parte da cidade e o fornecimento segue irregular.

Linhas telefônicas estão cortadas há duas semanas, desde que a coalizão isolou a capital e bombardeou sua infra-estrutura.

Os médicos do hospital Al Yarmouk têm trabalhado incessantemente, às vezes por 18, 20 horas por dia, desde que a guerra começou, em 20 de março.

Trataram tantos feridos que perderam a conta.

Cenário desesperador

Na segunda-feira, o Al Yarmouk foi atingido por um míssil; depois, por disparos de tanques. Para não se juntar aos pacientes, alguns médicos tiveram de fugir. Não voltaram mais.

O gerador de emergência parou de funcionar, acelerando o processo de decomposição dos cadáveres que lotam o pequeno necrotério. Os corredores do hospital, onde ecoavam na semana passada gritos de dor e desespero, estavam silenciosos ontem. No chão, poças de sangue se misturavam a vidros quebrados.

A sala de pediatria não funciona - uma cratera substitui o leito hospitalar.

Os saqueadores, que desde o início da semana "limpam" palácios, prédios públicos e instituições científicas, voltaram seus olhos para o Al Yarmouk, mas foram repelidos a bala pelos voluntários.

Ontem, apenas um jovem médico e três enfermeiras eram responsáveis pelo atendimento. Para não serem contaminados, removiam os corpos já sem vida com máscaras cirúrgicas. Nenhum cadáver foi lavado - uma exigência da religião islâmica. Os voluntários recitam apenas os versos do Corão, o livro sagrado do Islã, e enterram rapidamente os corpos. "Temos de fazer isso. Ontem, enterramos 20 corpos perto de uma mesquita", relatou o dentista voluntário Yasser Wajih.

(Fontes: Texto: Jornal da Tarde. Fotos: Yahoo e Lycos.)


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