Queda de Saddam Hussein divide opinião mundial

As preocupações com o futuro do Iraque e as especulações sobre qual será o próximo alvo do poderio militar norte-americano se misturaram nesta quinta-feira ao alívio geral pela queda de Saddam Hussein.

Seu regime de 24 anos parece ter chegado ao final na quarta-feira, quando tropas dos Estados Unidos ocuparam o centro de Bagdá e ajudaram a população, eufórica, a destruir uma estátua dele.

Mas em muitos países, especialmente na Europa e na Ásia, o alívio por não ter havido um banho de sangue na cidade foi ofuscado pelas desconfianças frente aos Estados Unidos. No Oriente Médio, o clima é de choque e irritação.

Muita gente arrisca que, animado com o sucesso no Iraque, o presidente George W. Bush vai agora partir para cima de outros países -- Síria, Irã, Líbia e Coréia do Norte são os alvos mais mencionados.

O príncipe Hassan, da Jordânia, disse que a Síria e talvez o Irã sejam os próximos alvos de uma guerra "em efeito dominó".

O jornal britânico Guardian, de esquerda, escreveu que "essa demonstração de força abusiva e sem precedentes dos EUA manda uma mensagem assombrosa. Quem sabe para que lado os canhões dos tanques Abrams vão se virar em seguida?"

Paris, que se opunha veementemente à guerra, celebrou a queda de Saddam. "A França, como qualquer democracia, dá as boas-vindas à queda da ditadura de Saddam Hussein", escreveu o presidente Jacques Chirac em nota oficial, "e espera que haja um fim rápido e efetivo da luta".

Mas o assessor presidencial Alain Juppé manteve as críticas a Washington: "Estávamos certos ao dizer que havia outras maneiras de desarmar o Iraque. O Iraque não usou armas de destruição em massa."

Muitos árabes se sentem órfãos de uma figura que representava um raro contraponto na região ao poder norte-americano; outros ficaram chocados com o fato de os iraquianos não defenderem seu líder nem lamentarem seu desaparecimento, e viram na queda do regime um alerta a outros líderes árabes.

"É um dia de vergonha", disse o engenheiro palestino Ali Jaddah, de Ramallah. "Neste dia, os árabes se tornaram escravos. O único homem que ousava dizer 'não' na cara dos americanos desapareceu hoje. O que sobrou foi um bando de líderes árabes que se curvam e cedem."

O jornal Daily Star, de Beirute, disse em editorial na primeira página que "os norte-americanos não devem confundir a alegria com a queda de um tirano com uma disposição de aceitar a ocupação. Eles só serão bem-recebidos no Iraque quando partirem."

Todos os olhos se voltam agora para a reconstrução do Iraque, e também há desconfiança contra os EUA.

"Ainda está para se provar que é uma boa idéia confiar a reconstrução do Iraque a um general norte-americano da reserva, que tem relações próximas com a indústria de armas, as empresas de petróleo e os 'falcões' do guerreiro George W. Bush", comentou o jornal belga De Morgen, referindo-se ao general Jay Garner, já apontado para comandar a administração civil interina do país.

"Há muita coisa em jogo para permitir que o futuro seja determinado por lobbystas de armas", disse o editorial. (Fonte: Agência Reuters.)


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