Professores espalham mapa falso da Amazônia via Internet
A história da internacionalização da Amazônia foi ressuscitada há poucos
dias na Internet. Desta vez, o mapa é mais recente, a origem da teoria
conspiratória parece ser a esquerda e a identidade dos espalhadores, senão dos
autores, do boato eletrônico é conhecida: trata-se de professores universitários.
De acordo com mensagem que começou a circular na semana passada, os alunos
“da escola junior high” dos Estados Unidos estariam aprendendo que a Amazônia
já não é mais compartilhada pelo Brasil e sete de seus vizinhos. A prova
estaria no livro "An Introduction to Geography", de um certo David
Norman. A mensagem não fornece a data de publicação ou o nome da editora do
livro. Mas traz, como anexo, um fac-símile de uma única página da suposta
obra, mostrando um mapa da América do Sul com vastas parcelas da Amazonia
designadas como "The Former Int´l Reserve of Amazon Forest", ou seja,
"a antiga reserva internacional da floresta amazônica".
A mensagem foi enviada sob o título "É o fim da picada!" a uma
lista de mais de cem pessoas do mundo acadêmico pelo professor Paulo Ribeiro da
Cunha, do Departamento de Ciência Política da Unesp-Marília. "Olhem o
anexo e comprovem o que consta à página 76 do livro e vejam que os americanos
já consideram a Amazônia uma área que não é território brasileiro, uma área
que rouba território de oito países da América do Sul e ainda por cima com um
texto de caráter essencialmente preconteituoso", escreveu o professor, no
dia 14 de novembro.

O simples exame do texto que acompanha o mapa revela que seu autor é brasileiro - um brasileiro que se julga conhecedor da língua inglesa mas comete erros crassos a cada duas ou três palavras que escreve no idioma de William Shakespeare. Fica patente que o texto foi pensado em português e vertido para o inglês, resultando num exemplo acabado do que alguns chamam de “ingreis” – o divertido dialeto das traduções literais e sem sentido que Millôr Fernandes consagrou no livro “The Cow Went to the Swamp”, ou, em bom português, “A Vaca foi para o Brejo”.
A primeira frase do texto que acompanha o susposto mapa da Amazônia internacionalizada comprova a falsidade da operação. "Since the middle 80´s, the most important rain forest of the world was passed to the responsability of the United States and the United Nations", diz o texto, numa língua que o autor supõe ser inglês mas é incompreensível para um americano. Trata-se de uma versão literal e sem sentido de uma frase capenga mesmo em português: "Desde meados dos anos 80, a mais importante floresta úmida do mundo passou para a responsabilidade dos Estados Unidos e das Nações Unidas".
Alguns exemplos dos erros mais grintantes: meados, em inglês, é "mid" e não "middle". Fosse "middle", pediria a preposição "of". O verbo "to pass" tem vários significados em inglês, mas um deles não é "transferir", usado pelo autor. Mais: em inglês não se escreve "the most important rain forest of the world", mas "the world´s most important rain forest". E a expressão "the most important", usada aqui com o significado de "a maior", seria substituída por "the largest" por um americano - estivesse ele ou não interessado em roubar a Amazônia.
Os professores que espalharam o falso mapa poderiam ter também se dado ao trabalho de verificar a autenticidade do livro mencionado na "mensagem-denúncia". É um cuidado que se deve esperar de educadores idôneos preocupados com o futuro do Brasil. Uma consulta via internet ao catálogo eletrônico da Biblioteca do Congresso, (www.loc.gov), que registra todas as obras comercialmente publicadas nos Estados Unidos e em boa parte do mundo, comprovaria que o livro "An Introduction to Geography", de David Norman, não existe. Consulta adicional a qualquer site de pesquisa na Internet, confirmaria que a suposta obra não passa de invenção. Além disso, poderiam ter usado o bom senso e deduzido que, se o livro existisse, pelo alguns exemplares estariam disponíveis em algum lugar do planeta.
A informação segundo a qual tal obra estaria sendo usada nas escolas junior high contém uma pista adicional sobre a falsidade da informação. Essa designação foi abandonada na maior parte dos EUA nos últimos anos e substituída por middle school (sexta, sétima e oitava séries). Finalmente, por mais que os americanos possam cobiçar a Amazônia, é difícil imaginar que uma escola americana adotaria um livro ou um texto repleto de erros e escrito numa língua incompreensível.
O governo brasileiro tomou conhecimento dessa nova onda de boatos na Internet sobre a internacionalização da Amazônia. Segundo fonte oficial, a orientação é responder individualmente às centenas de “denúncias” e pedidos de providência que chegaram ao Palácio do Planalto e ao Itamaraty, mas evitar um pronunciamento público, pois isso apenas valorizaria o que não passa de uma canhestra e rudimentar fraude intelectual.
Fonte: Redação Terra 071201.